terça-feira, 6 de abril de 2021

O céu do meu asséptico hospitalar quarto

As sombras projetadas no teto do meu asséptico hospitalar quarto são de uma leitura subjetiva, como é subjetiva a leitura das diferentes nuvens, quando as olhamos lá bem alto, majestosas no céu.

E confesso, o meu espaço infinito, o céu por cima da minha cabeça é, por estes dias, o teto do meu asséptico hospitalar quarto, teto este que à noite, com os resquícios da pouca luz existente, ganha vida, e dele, desse céu de placa de cimento armado feito, que por agora me cobre e protege, de olhar para ele nunca me canso ou farto.

E hoje está muito peculiar. Vejam o que eu penso que vi quando o estava a contemplar…

Vi a forma de uma Cavalo Marinho, sem pôr nem tirar, e nas suas costas, a forma “ampliaumentada” do que me parecia ser uma Pulga, sorri para mim, abrenúncio, coisa estranha e tão bizarra, à moda de Gil Vicente… de ficar boquiaberto… de soltar um: - Olha…! ou um: - Acudam, o fim do mundo em forma de pulga, está para chegar.

Olhando mais acima, um saco de soro parecia ter a forma de um estandarte rusticamente medieval, e o outro saco, com não sei bem o quê, por baixo do estandarte, tinha a forma de um estomago, e um inusitado apêndice… e o cabo enrolado, que vinha dos sacos, em reflexo, parecia que saia do estomago e aparentava, “trigo limpo farinha amparo”, ser o duodeno, o intestino grosso e o delgado…

Com tudo isto, o sono começou a tomar, bem de mansinho, conta de mim… se outras formas no céu do meu asséptico hospitalar quarto houve… não as sei descrever, pois, entretanto, acabei por me render ao cair das pálpebras, e simplesmente adormeci…

Escrevo como quem escreve

Escrevo como quem escreve na areia à beira mar, com a esperança de que as palavras na areia escritas,
uma qualquer onda, vinda de súbito,  as possa apagar.

Escrevo como quem escreve nas estrelas do firmamento, com a esperança de que as palavras   nas estrelas escritas, um qualquer astronauta, desligue o constelar quadro da luz, e as possa apagar.

Escrevo como quem escreve em uma e outra folha de papel, com a esperança de que as palavras escritas nas escassas folhas e que deram à luz um Livro, um qualquer “Homem Mau”, numa fogueira, no meio de uma purga literária, as possa queimar, e assim, para sempre as apagar.

Escrevo, por fim, na tua “alma’coração”, com a esperança de que as palavras escritas nesse sacrossanto lugar, nenhuma onda de nenhum mar, nenhum astronauta, nem nenhum “homem Mau”, as possa, jamais e em tempo algum apagar.

Amo-te

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Aquele BLUES da vida

Sento-me, humildemente, no magistral trono pessoal, o meu sofá… relaxo e coloco, com um toque digital, no Spotify, aquele BLUES… e embalo nos acordes, arrancados com amor, à muito chorada e sofrida, da má vida, guitarra. E cada acorde, por acorde, lambido e lânguido, enche-me, em pleno, a alma.

Não penso, melhor, tento não pensar…. fecho os olhos e relaxo, não sei se alcanço, desta forma, um estado superior, uma coisa mais Zen, quiçá, o Yin e o Yang, mas a ser que seja de boa onda, de bom Karma, mas, mais uma vez, com o som do melódico BLUES, em fundo, com aquela doce e apaladada ressonância, respiro e penso para mim: - Sim, sim pá, à tua frente há vida, assim, não deixes cair por terra, essa bênção de nome esperança!

Todos os acordes, maiores e menores, voam, invisíveis, pela sala… à volta de mim… dentro de mim… já não se trata da música em si, ou do meu BLUES, trata-se de NÓS, em união perfeita. A música sou eu, e eu sou a música, uma união mais do que sublime…, no entretanto, os músculos, todos os músculos, relaxam e dizem: - Calma Guerreiro do Choque! Calma!

Aos poucos sinto o corpo a “relaxoflutuar”, estou de olhos cerrados, mas não a dormir, estou sentado, mas na minha cabeça, entre sons e memórias e outras sensações vividas, há uma estranha e mirabolante dança.

Mais um dia! Um dia mais! Vivido da mesma maneira, mas em verdade, sempre de maneira tão mas tão diferente.

No circo pitoresco da vida, esta é, na verdade, como a bolsa de valores, um mercado da vida, onde coisas há que ganham valor e importância, e outras  que a perdem quase por inteiramente, porque o que de facto importa, ao final do dia, são os que realmente nos querem bem, nos amam, e com eles, a família, que são os que estão definitivamente lá (contigo) quando o corpo, (e a alma que o acompanha), fica doente.

Mas como diz um ditado, e em alguns deles há quer ter crença e fé: - Quem espera, sempre alcança.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Não fazemos amor, apenas dançamos

Não, não fazemos amor, apenas dançamos, presumo eu que seja um tango, e assim, quebramos e requebramos. Colamos os corpos, e ainda mais apertamos, não somos brandos.

Todos, sem exceção, em nosso redor, olham-nos, uns ávidos de uma dança assim, outros, roídos de uma inveja muito invejosa, perante a nossa “dança” libertina e viciosa.

Os nossos corpos bamboleiam ao som do compasso ritmado. Eu sinto-te… tu sentes-me. Dançamos? Sei que somos tudo, menos assim tão puros… tão cândidos.

Um amor assim, como o nosso, tão desejado e suado, é e sempre será um clássico, uma “Hérmes” vintage, nunca passa de moda.

 

A música não dá sinais de parar, os viperinos olhares, também não, tal como a nossa erecta e muito húmida paixão. Confuso, pergunto-te: - Isto que dançamos é um tango?

Roças os teus lábios “en rouge” nos meus, semicerras os ébrios olhos e retorques irónica: - “Qu’importa”, até pode ser o malhão ou um Samba de Roda.

A dança não é de todo ortodoxa, não segue uma moda ou sequer tem um padrão, somos apenas dois corpos, apaixonados, num bailado pleno de raiosos desmandos.

As nossas cabeças, carregadas de endorfinas, fazem com que nos vejamos, nos entrecortados espelhos, como dois cisnes, em modo de acasalamento, e embora dancemos torpes, vemo-nos a dançar, nos entrecortados espelhos, de forma graciosa.

 

As gotículas de suor são por ora a nossa fonte de água salgada, tequila improvisada, onde só falta o limão. Ato continuo, ensaiamos novos e desordenados passos de dança, exploramos outras zonas corpóreas… outros meandros.  

Nenhum de nós se cansa ou dá sinais de abrandamento, este amor é assim, cresce e cresce, tem forte fermento, é um tudo ou nada, onde nenhum deita a “toalha ao chão”, nenhum se rende nem se acomoda.

Agora sim, sei que é o Tango que dançamos, a dança dos amantes em casas escuras e salões de reputação duvidosa. Amor em forma de dança embuçada, uma dança a dois, com dois bons circunspectos e disfarçados “malandros”.

- Senhoras, e Senhores, o espetáculo “solo de dança” findou! Respiramos ofegantes, não esperamos pelo resultado ou prémio final, damos as mãos e saímos, de cabeça erguida, certos de querermos mais do que um amor de uma dança só, queremos sim, um amor nosso, dourador, vivido de forma terna, muito apaixonada e exorbitantemente calorosa.

 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

No teu regaço

Canta-me, melancólica e melodiosamente de amor, uma canção,

enquanto descanso, descansado, no teu maternal regaço.

Aperta com força (paradoxo) a tua delicada mão na minha mão,

para que eu não me perca nem me desoriente no tempo e no espaço.

 

Beija-me! Beija-me como se beijam os amantes de verdade, com amor, com emoção!

Abraça-me! Abraça-me num abraço protetor, assim… apertado, daqueles que me livram dos maus pensamentos e me aliviam, desta luta, o cansaço.

Olha-me bem fundo nos olhos! Perscruta-me até às raízes da minha alma! Olha, com olhos de ver todas as artérias apaixonadas deste meu, já teu coração!

Sussurra-me ao ouvido: - Meu amor, o nosso amor é amor-amor, não um devaneio, ou um erro crasso!

 

É nesse teu acolhedor colo que recebo, de ti, um beijo, e sinto em mim, uma interior, de amor, “qb” e “Al dente”, sensorial explosão.

Mais do que nunca, sei, naquele momento, que sem ti, a minha vida fora um vazio, e que doravante, sem ti não quero viver. Sem ti, meu amor, já não passo.

Quero um amor de certezas, que não caprichoso e diletante, tão pouco breve, fugaz ou passageiro, quero amor-amor, não amor- ilusão,

Porque qualquer amor, não amor-amor, está, com sucesso, destinado ao retumbante e doloroso fracasso.

 

Meu amor-amor, é tarde, deixa-me recolher novamente ao teu colo, lugar santo de abrigo e proteção.

Esse lugar aconchegante, bastião de força olímpico, mas ao alcance de um simples e honesto abraço,

No conforto do teu seio, o sono começa o seu resgaste… sinto-me a ir… para o mundo dos sonhos… - Que alívio. Penso eu, que afetuosa sensação.

E adormecemos, seguros um do outro, deste amor há muito aguardado, que por fim, tem o seu “Happy End” um muito Hollywood, não Las Vegas, enlaço.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

5emfuga.com

Há um bravo e destemido punhado de gente, neste nosso cada vez mais pequeno mundo,

que sempre que pode, está em FUGA, num pendular ir e vir, sempre com um pé no momento de mais uma chegada ou de mais uma partida.

Mas não fogem de nada, tão pouco de ninguém, são viagens, por aqui e por acolá, que os levam a conhecerem-se por dentro de uma forma mais intensa, em modo: “mais fundo”.

E não importa se a fuga é para fora, ou cá dentro, se a fuga é uma “fuga longa” ou uma “fuga de fugida”.

 

Sim, são diferentes da maioria de nó. As fugas são, também, a sua “alma mater”, que as enriquece como pessoas, não são uma fuga pela fuga, é algo mais profundo.

As suas vidas estão pejadas de momentos, e esses momentos pejados de todos os CINCO sentidos, e nelas CINCO, os CINCO sentidos ficam, de forma indelével, tatuados para a vida.

Descobrem, em lugares simples e insuspeitos, isto ao primeiro olhar, pessoas, coisas e paisagens inolvidáveis, deslumbrantemente sãs, neste mundo cada vez mais humanamente inóspito e esteticamente imundo.

É gente como a gente, gente, gente, como nós, com uma particular diferença, é gente, gente mais livre, não é gente, gente, que se esconde e vive na sua “concha protetora” tolhida.

 

Eu sei de 5emfuga, que nas suas fugas encontram os sempre tão necessários, numa família, momentos de união, e partilham as suas fugas, nem egoístas eles são, basta “GOOGLAR”, 5emfuga, e eles lá estão… não confundam: 5emfuga, eu não confundo.

São 5emfuga que vivem de coração aberto, prontos para “pegar e andar”, seja para longe ou perto, não vivem na sombra, vivem à vista de todos, à luz do dia, uma vida às claras, “nunca, jamais e em tempo algum”, uma vida selada, fechada, trancada ou escondida.

Nas suas cabeças há espaço para um GPS, até estou em acreditar que as suas sinapses elétricas, quando faíscam, forma “inside mind” um Mapa-Mundo.

Acredito que serão muitas as razões das fugas dos 5emfuga, mas afianço que uma delas será porque sabem que a vida, por mais longa que possa ser, é sempre breve, e que por isso, mas não só, deve e tem de ser, neste caso em fuga, bem vivida.

 

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João Ramos

13 de dezembro de 2020 – 22H58


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ou tudo, ou nada! Assim te quero Ó AMOR!

Ou tudo, ou nada! Assim te quero Ó AMOR!

Sim, não te quero ou desejo em suaves “prestações”, “grão a grão” ou aos pedaços.

Sim! Quero-te por inteiro! É muito? Dizes tu, Ó AMOR? Pode ser que seja, mas disso não tenho nem receio, nem temor.

Quero-me inundado de amor, Ó AMOR. Quero-me perdidamente perdido em mui doces e molhados beijos, e em intermináveis fortes abraços.

 

Ou tudo, ou nada! Assim te sinto Ó AMOR!

Sabes!? Ao teu lado, a soma de todos os momentos, mesmo bem somados, me parecem efémeros, escassos,

todo o meu eu quer sempre mais e mais, e com mais gana e desejo de ti… ai amor… Ó AMOR, és a fogueira que que arde, sem mácula, no meu peito e me enche de força e vigor.

Faz de mim o teu primeiro e único AMANTE, Ó AMOR, meu lindo amor! Que sejamos um só, na alegria e na tristeza, nas saboridas vitórias ou nos devastadores fracassos!

 

Ou tudo, ou nada! Assim te quero e sinto, Ó AMOR, meu lindo amor.

Tu, amor, Ó AMOR, moras nas formosas formas de uma mulher que amo, e de quem anseio eu escutar, em breve, em direção a mim, os seus passos.

Viver-te a ti, Ó AMOR, é vivê-la a ela, vós coexistis, e nessa união, vejo um amor de rara mas singela beleza, e um tão singular e humilde esplendor.

Ou tudo, ou nada! Ó AMOR, porque se não for para ser um amor completo, rejeito os despojos titubeantes de um simples “gostar”, qua soam a momentos de não amor, Ó AMOR, mas sim a pobres e miméticos atos entre dois seres, que se condenam a longos fracassos.

 

João Ramos

17/12/2020

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Encurralado no TEMPO


Fui, sem o saber, encurralado no TEMPO, nesse TEMPO que não sei quanto TEMPO vai durar, e com que tempo, do TEMPO, me foi colocado na algibeira para por cá andar.

Mas todo o tempo, do TEMPO, que passo sem o teu amor, sem dizer o quanto te amo e sem o teu abraço,

é mais pesado e penoso do que esta coisa que agora carrego em mim, que me tolhe a alma. Lá silenciosa ela é, mas sabe por o palato de qualquer pessoa a amargar, de parecer que o mundo se entropia, e ficamos sem onde nos agarrar.

Tal como o AMOR, um grande AMOR, “ela” também não tem cura, apenas entra em remissão, mas um dia pode vir, ou pode ir e não voltar, ou voltar nunca mais… mas não se enganem, pois tal como o AMOR, um grande AMOR, embora queda e muda, está lá, escondida num qualquer e interior nosso espaço.

 De repente, estou assim, encurralado no Tempo, e percebo que uma vida toda, ou uma vida como a de Matusalém, é sempre curta para fazer seja o que for… mas quando pensamos no amor, AMOR, e o quanto podíamos ainda mais amar… é como “morrer na praia”, ou ficar algures entre o último pedaço de terra e a primeira espuma da água que anuncia o imenso mar.

Passa-se a viver a vida em duodécimos, a prestações, com o irrequieto, irritante e inquietante som do Metrómano a marcar, sobre a minha vida, o seu ritmo, o seu compasso.

Agora já não conto os anos, os meses, tão pouco as semanas, penso apenas no hoje, porque “Hoje é Hoje”, amanhã? Bom, amanhã logo se verá! É viver às cegas, com uma venda nos olhos, tatear tonto aos apalpões, e com um garrote… que tanto pode salvar uma vida, como a pode tirar.
Até que ponto somos donos de nós? Não será uma ilusão!? Talvez! Por certo que sim!  Seremos senhores de decidir quando e como chegamos? E quando e como partimos? Não sei! Não creio! Aliás, cada vez sei menos, e menos certezas tenho acerca de tudo. A cada dia que passa, tudo está, aos olhos de minh’alma, muito torpe e baço!

 

E volto a pensar no tempo, naquele TEMPO que “pergunta ao TEMPO quanto tempo é que o TEMPO tem”, e o TEMPO, como não sabe, não quer ou não pode dar a resposta, acanha-se, esconde-se, envergonha-se de uma vergonha que até o próprio tempo do TODO PODEROSO  TEMPO, se retorce e as suas temporais faces de tempo do TEMPO, podemos ver corar.

E eis que volto a pensar, por causa do tempo, ou da escassez do mesmo, no AMOR. Não num só tipo de amor, mas em todos os tipos e formas de AMOR, o que me leva a pensar que se achava que tinha sido generoso a dar amor!? A Amar!? Agora sei que sovina fui nessa dádiva. O que dei, aos meus olhos, hoje, fede a pouco, tresanda a escasso.

Não creio, porém, que tenha sido por mal, leviana má fé, ou até por falta de empenho e dedicação, acredito sim que a vida, VIDA, por mais longa que seja, foi, é, e sempre será curta de mais para se conferir real valor ao amor e, para sem receios, a quem se ama, com esse amor AMOR, bafejar.

Tic-Tac, Tic-Tac. É aquele som mais calado que um mudo, que ressoa em nós, quando tomamos consciência de que não vamos ficar para sempre, como semente, talvez possamos passar a viver a vida, VIDA, com mais VIDA, e com o garrote, que tanto pode salvar uma vida, como a pode tirar, menos apertado, mais vida, VIDA, mais laço.

 Queria-te aqui, meu primeiro e único amor. Pelo amor e para fazeres a tua magia, e assim, este bater forte de medo que tenho no meu coração, conseguires acalmar, e quiçá, entre beijos, mimos e muitos abraços, possa por momentos ser esquecido ou até mesmo passar.

Queria o teu aconchego, poder ser sem medo ou vergonha, e em simultâneo, Homem/Menino, receoso e trémulo, mas ficar calmo e seguro, deste mar de medo agitado, em ti, no teu abraço.

Não desisti, nem “deitei a toalha ao chão”, penso no tempo, TEMPO, e viver o dia-a-dia. Continuo a ter Fé, e, quando à noite me deito, a pensar na vida, VIDA, gosto de sobre ela SONHAR,

porque dure a minha vida o que durar, de antes de anteontem, em diante, quero sentir que cada dia, do meu dia, foi um dia de AMOR, e não de nula pasmaceira, ou um fracasso!

 

02H24

03/12/2020


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Um lugar bom para albergar (o teu) um coração


“Cada um é como cada qual e cada qual […]” é à sua maneira.

O mesmo se pode dizer sobre o que para cada um o leva a alcançar a felicidade… a ser feliz.

Calma! A felicidade, esse estar feliz, é como a História, parafraseando Lucien Febvre: “É filha do seu tempo.”. E o que importa é que nesse tempo, a felicidade seja sentida e verdadeira.

Que seja felicidade do “tipo” felicidade, “tipo” … equilibrada, 50/50, tão congruente como uma perfeita bissetriz.

 

Sei que tens um grande, grande coração, daqueles, sabes, que não cabe num pequeno bolso ou algibeira,

tem de ser assim num espaço muito, mas muito maior, ou “mais grande”, como dizem as crianças… sabes, até já vi alguns projetos e ideias, estou a verificar cada um ponto por ponto, matriz por matriz.

Quero que esse tão grande e bom coração encaixe na perfeição onde um coração, assim, como o teu, se deve guardar, um lugar de encaixe fácil, sem ter de ser à força e com a ajuda de uma calçadeira.

Caso contrário, se não conseguir arranjar apropriado refúgio para esse sensorial coração, ficaria de rastos, o contrário de felicidade… sentir-me-ia muito infeliz.

 

Sabes, não sou moço de posses ou abastado, mas já falei com os melhores engenheiros que conheço, eu cá sou assim, quero para o teu sensitivo coração, uma coisa fixe pá, como tu, assim uma coisa mesmo porreira.

A malta conhecida, depois de encontrado o espaço, criado o espaço, tem de olhar e comparar a “coisa”, olhar para o teu coração nobre coração e dizer: - Ena pá, nem largo, nem justo, atão não é que está perfeito… o espaço para guardar o coração… tudo condiz!

Haverei de encontrar tal espaço, coisa ou lugar, seja a bem, ou a bem, a mal nunca será, nem que recorra a “Wiccas”, oráculos, bolas de cristal, ou que mande vir das américas um Benzedeira,

e eu sei que vou conseguir, melhor, vamos conseguir, vai dar certo, e se não for por margem folgada, que seja por uma” unha negra”, por “um triz”. Como amigo, o que eu quero é que sejas tão somente… feliz!

 

Para este inaudito projeto, tenho-te andando a tirar as medidas ao coração, “plus”, intensidade elétrica que este emana de felicidade, e acredita, olhar o coração de outro alguém e avaliar a intensidade da sua felicidade, não é brincadeira,

até porque mexer com o coração de alguém é coisa mesmo muito séria, e olha que nada que vi, ouvi ou li, o desdiz.

Tu mereces, e na verdade mal te conheço… apenas o teu toque, e os teus olhos, mas que quando em simultâneo estão na minha presença acalmam-me, e enchem-me a alma todinha, plena, por inteira.

Nesses momentos és tudo, és grande, és a minha heroína, pois trazes paz à vida de alguém, que por razões da existência, se sente agora tão pequeno e com medo de sorrir ou até algo mais arrojado, como sentir aquela alegria de quando se era petiz.

 

Sabes, gosto mesmo muito de ti, e na fronteira de uma quase funcional bipolaridade, és a minha tábua de salvação, um dos meus dois Anjos da Guarda, um baluarte, a última defesa, a última e mais forte charneira.

Brota de ti uma afeição especial e que sinto como pura, como pura e especial, para quem tem sede (medo), é como a água que brota cristalina de um chafariz.

Onde guardar alguém que no silêncio dos olhares é Estrela do Norte, Astrolábio, Bússola, GPS, sedativo são e natural, amiga em silêncio subentendida e até conselheira?

Pois é, sei bem onde guardar esse teu magnífico e por explorar coração, cara amiga, e que gostava de ver pleno de felicidade… acabo de te arranjar um T0, mobilado, no meu peito, na minha alma/coração, porque a vida não tem de ser sempre um solitário, pesado fardo fado, que aqui resguardados, o teu coração e felicidade sejam, doravante, um dos meus Anjos, uma poderosa e libertadora força motriz.

 João Ramos

00H58

02/12/2020

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A História de Catarina, “La Prima Ballerina”

A medo, e com algum custo, devidamente acompanhada por uma sonora solidão,

mas movida pela força maior que é, indubitavelmente, e sem sobra de dúvida o SONHO,

subo, ainda que insegura, os degraus do centenário envelhecido e nobre salão.

Numa mão, seguro uns velhos sapatos de pontas, de um rosa já desbotado e com a outra, agarro forte o agastado corrimão mono.

 

Ainda a medo, e de coração acelerado, abro as portas do meu novo palco. Ei-la, a sala!

E olha, ali, o grande espelho, a barra…. e um solitariamente nobre piano, o coração do amplo espaço… e aquele cheiro… é tanta e tanta a minha emoção

Numa das calejadas paredes, um retorcido e plácido retrato, onde leio de soslaio: GIUSEPPINA BOZZACCHI. Bailarina… pelo menos, suponho

Súbito, um delicado toque no meu ombro acorda-me para a realidade. Ah! É o velho dono da já também velha esbelta sala, e é também o velho que toca o solitário e nobre piano, pois então!

 

Sorri com candura, ele, circunspecto, aponta para os velhos sapatos de pontas, de um rosa já desbotado, e “presto” avança trôpego para o piano, apoiado num tosco, mas nobre bordão.

Sorri eu, novamente, agora trémula, mas logo ligeira, e os velhos sapatos de pontas, de um rosa já desbotado são logo por mim, aprendiz, calçados, é uma ordem desejada à qual não me oponho.

A luz, bem, a luz é fraca, mas quanto baste, provem de uma tão romântica clarabóia, penso eu… e pensei, também: - Agora é que é! Vá, avança! Assim gritou em silêncio o meu coração.

“Allegro ma non troppo”, soam os primeiros gemidos do piano, que rápido dão forma a uma bela melodia, tão sagrada, com tão celestiais notas, como que feitas para uma sonora oração.

 

Menina! Exclamou o Velho. - Aqui somos clássicos, aqui “notre pratique est seulement École Française! Pelo amor puro à dança, que é um amor como o definia Platão,

onde, como a menina saberá, não interessa a coisa como objeto, o material, mas apenas e só a virtude, é um amor assim, pelo Ballet, que eu hoje, agora e aqui lhe proponho!

A melodia, interpolada com o discurso, no ar pairava, e eu disse, acenando: - Sim! Enquanto uma estranha magia, conta de mim do meu corpo e alma tomava. E o coração, num forte “catrapum, pim, pam pum, já todo ele dançava… - Menina! Não há dança sem aquecimento, é a minha primeira lição!

As ordens de um Mestre são isso mesmo, ordens de um Mestre, há que obedecer e fazer, por mais que nos pareça aborrecido ou enfadonho.

  

No entretanto, a música parou, e o Velho, agarrado ao seu tosco, mas nobre bordão, pegou numa linda caixa em forma de coração

-Abra! E eu abri.  – Não é uma prenda menina, é muito mais, é mais uma parte do todo que um dia espera vir a ser. Assim me falou, o Velho, pela primeira e última vez, com um ar sereno e risonho.

A caixa, já baça, e em forma de coração, deixava ler: - De mim para ti, minha “Prima Bellerina”. Estremeci, e a caixa abri, num misto de curiosidade juvenil e emoção.

Vislumbrei um bilhete mais íntimo, em tons de rosa, em que li: - Minha “Prima Ballerina”, e meu “primo e unico amore”, e lá dentro, ainda, um “Tutu”, olhei o Velho, e tal como ele, lágrimas muitas verti, e agradeci, com uma solene “reverence”, nada parecia real, pareciam vidas cortadas, e agora unidas do nada, como vindas de um “entre sonhos”.

 

Foram muitos dias, uns mais difíceis, outros menos, mas sempre bonitos, eramos nós, o Velho e o nobre piano, eu, os velhos sapatos de pontas, de um rosa já desbotado e o “tutu”, um desiderato nos unia, havia uma mútua, silenciosa e consentida co-adoção.

Foram dia de muitos “Grand Jeté”, um ou dois “Plié”. - Força menina, dê-me um “Grande Plíe” e termine com um “Frappé”. Foram tantas e tão esforçadas sequências e posições, mas assim me preparei para o papel maior do Lago dos Cisnes, Odette. – Estão aí as audições. Disse-me, e senti uma ânsia e um medo muito medo e muito medonho.

No dia e hora marcada, de charrete, em silêncio, fomos ambos à audição. Chegámos, saímos, o Velho apoiou-se no seu tosco, mas nobre bordão, e do lado oposto, apertou-me forte e com amor a minha mão.

 

Chamam pelo meu nome, sorridente, e em reforço, apresentei-me: - Catarina, “Prima Ballerina”. E todos sorriram… pareceu-me ouvir a voz, vinda do exterior, do meu Velho a dizer: - É agora, dança e dança como se nunca tivesse havido um ontem, houvesse um hoje ou pudesse vir a haver um amanhã. Mentalmente respondi: - Sim meu querido Velho, tem razão… tem razão!

A música arrancou, libertei-me, senti-me a flutuar, vi as notas da melodia, juro, comigo a dançar, e todas as antepassadas “Primas Ballerinas” comigo a rodopiar, e por fim, termino com um “Arabesque”… a gritar por dentro: - É a dançar que bem me sinto, que me liberto e bem me disponho.

Longo foi o tempo de espera, a angústia de nada saber, até que um gentil moço mensageiro tocou à porta, entregou-me um pequeno envelope e o envelope abri… e li: “Mademoiselle Catarina, o papel de Odette do Lago dos Cisnes, é para si. Ballet de l'Opéra de Paris. Ia ser uma “Prima Ballerina”, era verdade, realidade, e não mais um sonho ou ilusão.

Sai a voar, corri escada acima, a levar tão boa nova, abro a porta da sala e dou com um imenso nada, nem o grande espelho, a barra…. ou o solitário, mas nobre piano… terá também o meu Velho, em silêncio, “partido”? Assim, pensei, e hoje, também eu já de idade bem adiantada, aqui nesta cama deitada, com a caixa baça, em forma de coração ao peito agarrada, acredito que o meu Mestre, o meu Velho, sem que ninguém soubesse, era um anjo do meu sonho e terminada a missão, ao céu subiu, assim acredito, assim suponho

 

“A verdadeira riqueza não está em cumprir todos os sonhos, por vezes basta alcançar apenas um só e por inteiro, e devemos escolher aquele que no nosso coração e na nossa alma, achamos ser o sonho dos sonhos, de todos, o sonho mais apetecido e verdadeiro.”

Há sempre um Anjo que nos acompanha.